Tango, música típica de Buenos Aires, tem a ver com a realidade e a evolução do povo desde as últimas décadas do século XIX até aos nossos dias.

No começo, o Tango surgiu como música para bailar, tendo-se acrescentado a poesia por meio das letras, que introduziu a voz dos cantores para dizer os poemas. É através dessa trilogia – música, baile e poesia – que o tango argentino deve ser abordado.


Buenos Aires está à beira do rio La Plata, e o Tango constitui o seu meio de expressão musical. Há outras cidades do interior – Rosário, Mar de Plata (onde nasceu Piazzola) e Olavarria – que estão também ligadas à origem e à evolução do tango. Foi, contudo, na capital que se encontraram todas as suas energias criadoras e a partir dela que o Tango se projectou no estrangeiro, como uma expressão tipicamente argentina.


Em 1851, começaram a chegar a Buenos Aires as primeiras vagas de imigrantes europeus, sobretudo espanhóis e italianos. Nas décadas de 1870-1880, a cidade tem dois milhões de habitantes, dos quais metade são originários do ultramar. E nesta segunda metade do século XIX, gera-se um fenómeno musical: o Tango.


As suas raízes e influências são variadas: os sons provenientes das Caraíbas – 
habaneras –  trazidos pelos navios vindos daquelas latitudes; a milonga, originária das pampas argentinas e uruguaias; o candombe, que era o ritmo próprio das comunidades de escravos que desde o século XVIII habitavam o actual Uruguai; a influência andaluza no ritmo; a influência italiana nas melodias. A origem da designação é atribuída aos nomes dos espaços onde eram alojados os escravos até ao momento da sua venda e ao nome das suas danças – Tan-goGo-Tan (linguagem Lufardo).

Tango surge como uma música destinada apenas a ser bailada. Quando apareceu, a Argentina era (tal como os Estados Unidos) o país de maior número de habitantes estrangeiros em todo o mundo. Esta imigração era 70% masculina, pelo que proliferavam os bordéis para aplacar os desejos sexuais de tantos homens. Como variante à função dos bordéis, bailava-se o Tango, sendo a dança o pretexto para ajudar ao convívio e à aproximação das pessoas. Assim, o Tango aparece como uma música marginal e da periferia da cidade, como uma música “prostibular” e indecente, para gente de conduta de moral duvidosa.


Só depois de chegar à Europa, principalmente a Paris, em 1920 e de ser dançado nos salões elegantes do velho mundo, é que o Tangoascende na escalda social argentina, tomando o brilho e a categoria próprios de tudo o que viria a consagrar-se além das suas fronteiras. No aspecto musical ou instrumental, o Tango começou a ser tocado com violino, guitarra e flauta. As melodias eram precárias e os músicos tocavam de ouvido, já que não tinham formação musical ou estudos.


A partir de 1900, aparece o bandoneon, em parte a substituir a flauta, e a partir daí não se concebe o Tango sem a presença deste instrumento. Mais tarde é acrescentado o piano, o violoncelo, a viola e o contrabaixo. Surgem as orquestras típicas (quintetos e sextetos). Nesta altura, o Tango já era adoptado pela alta sociedade argentina. Desde 1920, principalmente nas décadas de 20 a 40, houve um verdadeiro “boom” do género. As orquestras chegam a atingir os 13 elementos e são integrados por músicos com estudos superiores, criando um estilo mais sofisticado.


Outra componente importante do Tango é a letra. Nos seus primórdios, as letras eram de pouca qualidade literária. Na etapa seguinte, a temática vira-se para o amor. Passadas algumas décadas, a temática centra-se na culpa. Na década de 40, os poemas descrevem os bairros, o bailarino, a noiva. A essência é diferente, porque Buenos Aires mudou, e o Tango deixa as periferias e as zonas marginais para  introduzir-se na cidade e nos bairros. A partir de 1930, homens e mulheres (acompanhadas pelas respectivas mães) encontravam-se, conheciam-se nos espaços onde se bailava o Tango e em muitos casos constituíam casais para sempre, no baile ou na vida.


É uma dança de harmonia que nega a matemática, pois no Tango, um homem e uma mulher não são dois, mas sim um.